Empresas começam a se preparar para a era da criptografia pós-quântica

Isabelle Westdale
75 Min de leitura

Avanço da computação quântica aumenta a preocupação com a segurança de dados e leva empresas a planejar a migração para novos padrões de proteção digital

A evolução da computação quântica está fazendo empresas e instituições de tecnologia anteciparem uma mudança importante na segurança digital: a adoção da chamada criptografia pós-quântica (PQC). A preocupação ainda não está relacionada a uma ameaça imediata, mas especialistas defendem que organizações com dados de longo prazo precisam começar desde já a identificar seus sistemas criptográficos e planejar uma migração gradual. A avaliação é especialmente relevante porque uma mudança dessa dimensão pode levar anos e envolver servidores, aplicativos, dispositivos, redes e sistemas de armazenamento. (Sindpd)

O alerta ganhou força porque computadores quânticos suficientemente avançados poderão, em determinadas condições, comprometer algoritmos de chave pública utilizados atualmente para proteger comunicações, transações e informações corporativas. Uma estimativa citada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados aponta que especialistas consultados pelo Global Risk Institute avaliaram em 50% a probabilidade de uma máquina capaz de quebrar uma chave RSA de 2048 bits em até 24 horas existir até 2040. A projeção não significa que esse tipo de equipamento estará necessariamente disponível nessa data, mas reforça a necessidade de preparação antecipada. (Sindpd)

Por que a criptografia pós-quântica ganhou importância?

A criptografia atual protege grande parte das atividades realizadas na internet, desde operações bancárias e compras digitais até comunicações corporativas e acesso a sistemas internos. O problema é que alguns algoritmos amplamente utilizados foram desenvolvidos para resistir às capacidades dos computadores tradicionais. Um computador quântico suficientemente poderoso poderia utilizar algoritmos específicos para reduzir drasticamente o tempo necessário para determinados ataques criptográficos.

A ameaça também está relacionada ao chamado “harvest now, decrypt later”, estratégia na qual dados criptografados são capturados hoje e armazenados para serem eventualmente descriptografados no futuro. Isso significa que informações que atualmente parecem protegidas podem continuar representando um risco mesmo que a tecnologia capaz de quebrar sua criptografia ainda não esteja disponível. Dados financeiros, informações governamentais, propriedade intelectual e registros corporativos de longa duração estão entre os tipos de informação que podem exigir atenção especial. (Sindpd)

Por esse motivo, a preparação não depende exclusivamente de esperar que computadores quânticos se tornem comercialmente viáveis. Empresas precisam compreender quais mecanismos de criptografia utilizam, onde estão suas chaves e certificados e durante quanto tempo determinados dados precisam permanecer protegidos. O processo de descoberta é considerado uma das primeiras etapas para que a organização consiga definir quais sistemas devem ser atualizados primeiro.

Empresas já começam a adaptar suas infraestruturas

A preparação para a criptografia pós-quântica já está sendo incorporada por empresas de diferentes setores. A Intel, por exemplo, avalia que a transição exigirá mudanças que vão muito além da substituição de um algoritmo. De acordo com informações divulgadas sobre o processo, as organizações precisarão considerar impactos sobre desempenho, protocolos, APIs, hardware e software, além da compatibilidade entre diferentes componentes tecnológicos. (Sindpd)

A fabricante também aponta que mecanismos pós-quânticos podem utilizar chaves maiores e exigir diferentes níveis de processamento. Para reduzir os impactos, recursos como aceleradores criptográficos, bibliotecas otimizadas e tecnologias destinadas a acelerar operações de segurança podem desempenhar um papel importante. A preparação também deve alcançar recursos como assinatura de firmware, comunicação entre dispositivos, atestação e inicialização segura.

A preocupação não está restrita aos processadores. SSDs, placas de rede, sistemas operacionais, hipervisores, aplicativos, serviços conectados e dispositivos de Internet das Coisas também podem utilizar mecanismos criptográficos que precisarão ser avaliados. Isso transforma a migração em um projeto amplo de infraestrutura e não apenas em uma atualização pontual de segurança.

Estados Unidos estabelecem cronograma para a transição

Os Estados Unidos já estabeleceram um cronograma específico para a atualização de sistemas relacionados à segurança nacional. A partir de janeiro de 2027, novas aquisições destinadas aos National Security Systems deverão atender aos requisitos da Commercial National Security Algorithm Suite 2.0, que reúne algoritmos pós-quânticos padronizados pelo National Institute of Standards and Technology, o NIST, e selecionados pela NSA.

A previsão apresentada no planejamento americano é que a implantação em novos sistemas, com determinadas exceções, avance até 2031, enquanto a adoção completa está prevista para 2035. Embora esse cronograma não determine diretamente o que todas as empresas privadas devem fazer, ele funciona como um importante sinal para fabricantes, fornecedores de tecnologia, órgãos de auditoria e organizações que trabalham com informações sensíveis. (Sindpd)

O movimento também mostra que a criptografia pós-quântica está deixando de ser apenas um tema acadêmico e passando a integrar estratégias de segurança de longo prazo. Em paralelo, empresas de tecnologia e cibersegurança já começaram a testar soluções específicas. Em 20 de agosto, por exemplo, a Cyber Security Cloud anunciou no Japão o início de testes técnicos para adaptar seu serviço de firewall de aplicações web à criptografia resistente a computadores quânticos. (プレスリリース・ニュースリリース配信シェアNo.1|PR TIMES)

O que as empresas precisam fazer?

O primeiro passo recomendado é realizar um inventário criptográfico. Isso significa identificar onde a criptografia é utilizada dentro da organização, quais algoritmos estão em operação, quais certificados são empregados e quais chaves protegem sistemas e informações. Também é importante mapear mecanismos de assinatura digital, atualização de software, autenticação de dispositivos e proteção de firmware.

Depois desse levantamento, as empresas precisam definir prioridades. Dados que possuem alto valor e precisam permanecer confidenciais durante muitos anos devem receber atenção especial. Certificados raiz, chaves de assinatura e outros componentes que sustentam a confiança de toda a infraestrutura também podem ser considerados prioritários, pois uma falha nesses elementos pode afetar diversos sistemas simultaneamente.

Outro conceito importante é a agilidade criptográfica, que consiste em criar arquiteturas capazes de substituir algoritmos de segurança sem exigir uma reconstrução completa da infraestrutura. Essa abordagem pode facilitar futuras atualizações caso novos padrões sejam adotados ou novas vulnerabilidades sejam descobertas. Para grandes empresas, a capacidade de realizar essas mudanças de maneira gradual pode reduzir custos e diminuir o risco de interrupções.

O que muda para consumidores e empresas?

Para o consumidor comum, a transição tende a acontecer de forma pouco perceptível. A expectativa é que sistemas operacionais, navegadores, aplicativos, serviços bancários, plataformas de nuvem e dispositivos conectados passem a incorporar novos mecanismos de proteção sem que o usuário precise realizar mudanças complexas. O objetivo é manter a segurança das informações enquanto a infraestrutura tecnológica evolui.

Para as empresas, entretanto, o processo pode ser significativamente mais complexo. Sistemas antigos podem utilizar algoritmos incorporados diretamente ao software ou ao hardware, dificultando sua substituição. Organizações também precisarão verificar se fornecedores, parceiros e serviços externos estão preparados para trabalhar com novos padrões, principalmente em cadeias de tecnologia nas quais diferentes plataformas precisam se comunicar.

A pesquisa divulgada pela Axiad em agosto de 2026 mostra que ainda existe uma diferença entre confiança e preparação. Segundo o levantamento com 315 líderes de segurança e tecnologia nos Estados Unidos, 46% não conseguiam indicar uma pessoa responsável pela migração para PQC, enquanto 51% nunca haviam testado formalmente se suas infraestruturas públicas eram compatíveis com troca de chaves pós-quânticas. (PR Newswire)

Conclusão

A chegada da computação quântica ainda não significa que os sistemas de criptografia atuais estejam prestes a ser quebrados, mas o avanço tecnológico está mudando a forma como empresas avaliam a segurança de seus dados. A possibilidade de ataques futuros, combinada ao risco de informações criptografadas hoje serem armazenadas para posterior descriptografia, faz com que a preparação para a era pós-quântica se torne uma questão estratégica.

A migração deverá ocorrer de forma gradual e envolver muito mais do que a adoção de novos algoritmos. Será necessário mapear toda a infraestrutura criptográfica, atualizar sistemas, avaliar fornecedores, proteger dados de longo prazo e desenvolver arquiteturas mais flexíveis. Para empresas que lidam com informações sensíveis, começar esse processo antecipadamente pode ser fundamental para evitar uma corrida contra o tempo quando a computação quântica atingir um nível de capacidade capaz de representar uma ameaça concreta.

Fontes

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