Elmar Varjão

O que sustenta um aerogerador, na realidade, fica escondido sob o solo

Isabelle Westdale
5 Min de leitura
Elmar Varjão

Quem observa um parque eólico vê torres, pás e turbinas. Para Elmar Varjão, CEO da André Guimarães Engenharia e Infraestrutura, a parte mais exigente desses empreendimentos é justamente a que desaparece depois de pronta: fundações, acessos, plataformas de montagem e redes que tornam possível instalar e operar cada máquina.

A expansão da energia eólica levou para o interior do Nordeste uma demanda intensa por obras civis. Segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica reunidos pelo governo da Bahia, o estado e o Rio Grande do Norte respondem juntos por 65% da energia eólica gerada no país. Boa parte desses parques fica em áreas de relevo acidentado, distantes de centros urbanos e com infraestrutura viária limitada.

Fundação: o bloco que absorve o vento

Um aerogerador não pesa apenas sobre o solo. O vento atua sobre o rotor no alto da torre e gera um momento de tombamento expressivo, que muda de direção e intensidade ao longo de toda a vida útil da máquina.

A fundação precisa absorver esse esforço repetido milhões de vezes. Em geral, trata-se de um grande bloco de concreto armado, apoiado diretamente no terreno ou sobre estacas, conforme a capacidade do solo. A concretagem costuma ser feita em uma única etapa contínua, o que exige controle rigoroso da temperatura do concreto para evitar fissuras de origem térmica.

Acessos e plataformas: a obra que permite a montagem

Pás, segmentos de torre e naceles chegam em carretas especiais, de grandes dimensões. As estradas internas precisam ter raios de curva, inclinações e capacidade de carga compatíveis com esses comboios. Pontes, bueiros e trechos de rodovias públicas no caminho até o parque também devem ser avaliados, e às vezes reforçados, antes do primeiro transporte.

Elmar Varjão observa que, em muitos parques, o sistema viário interno representa parcela relevante do volume de terraplenagem do empreendimento. Ao lado de cada torre, uma plataforma compacta recebe o guindaste principal e as peças, e a estabilidade dela é condição para uma montagem segura.

Investigação geotécnica: o risco que se resolve no início

Num parque com dezenas de aerogeradores distribuídos por quilômetros, o solo raramente é homogêneo. Uma área pode ter rocha próxima à superfície, enquanto outra, a poucas centenas de metros, exige fundação profunda.

Por isso, a sondagem individual em cada posição de torre faz parte do projeto. Na leitura de Elmar Varjão, economizar nessa etapa é uma das formas mais comuns de transferir incerteza para o canteiro, onde cada descoberta altera a solução de fundação, o consumo de concreto e o cronograma.

Conexão e logística: a obra que liga o parque à rede

Além das torres, o parque precisa de redes de média tensão, subestação e, muitas vezes, linha de transmissão até o ponto de conexão com o sistema elétrico. São obras com projeto, licenciamento e cronograma próprios, frequentemente executadas por equipes diferentes das que montam as torres.

Elmar Varjão aponta que a coordenação entre essas frentes é decisiva. Turbinas montadas sem subestação pronta representam capital parado, e o planejamento precisa sincronizar terraplenagem, fundações, montagem e conexão desde o primeiro dia.

Infraestrutura que fica no território

Encerrada a montagem, as estradas internas, os acessos e parte da rede elétrica permanecem. Elmar Varjão comenta que, em regiões do semiárido historicamente pouco atendidas por infraestrutura, essas obras passam a fazer parte da paisagem econômica local.

A transição energética costuma ser discutida em termos de megawatts e tarifas. Mas ela só se concretiza com engenharia civil feita em lugares difíceis, com solo heterogêneo, logística pesada e prazos que não admitem improviso. É nesse trabalho invisível que se define a viabilidade de cada parque.

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