Feminicídios caem 2,5% no Brasil no primeiro semestre de 2026, mas nove estados registram alta

Diego Velázquez
7 Min de leitura

Dados do governo federal mostram queda nacional nos casos, enquanto Centro-Oeste, Sul e Sudeste vão na contramão da tendência.

O Brasil registrou 741 feminicídios entre janeiro e junho de 2026, uma redução de 2,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando foram contabilizados 760 casos. Os números fazem parte do Monitoramento Nacional da Violência contra a Mulher, elaborado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) em conjunto com o Ministério das Mulheres, com base em dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública. Apesar da queda no total nacional, o levantamento revela um cenário desigual entre as regiões do país, o que levanta uma pergunta recorrente entre quem acompanha o tema: por que alguns estados avançam na proteção às mulheres enquanto outros pioram justamente no mesmo período?

A resposta passa por fatores regionais distintos, que vão desde a efetividade de políticas locais de prevenção até mudanças na forma como os crimes são registrados pelas polícias estaduais. Entender essas diferenças ajuda a explicar por que uma queda nacional não significa, necessariamente, que o problema está sendo resolvido de forma homogênea em todo o território brasileiro.

O que mostram os números por região

Na comparação mensal, junho foi o mês com menor número de casos do semestre, com 108 registros, ante 127 em junho de 2025. No acumulado do primeiro semestre, isso representa 19 vítimas a menos que no mesmo período do ano passado. As regiões Norte e Nordeste puxaram a queda nacional, com reduções de 20% e 19,9%, respectivamente. Estados como Acre, Rondônia, Roraima, Piauí, Maranhão e Pernambuco tiveram diminuição nos casos em relação ao primeiro semestre de 2025.

O cenário se inverte em outras regiões. Centro-Oeste, Sul e Sudeste registraram aumento nos casos, com altas de 19%, 19,2% e 2,6%, respectivamente. Entre os estados, Goiás teve o maior crescimento percentual, de 113,6%, seguido por Sergipe, com alta de 71,4%, e Amazonas, com 66,7%. Santa Catarina, Paraná, Amapá, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio Grande do Norte também registraram aumento nos casos no período.

Em números absolutos, São Paulo segue como o estado com mais ocorrências, somando 142 feminicídios no semestre, seguido por Minas Gerais, com 72 casos. O Acre foi a única unidade da Federação que não registrou nenhum feminicídio nos seis primeiros meses do ano. Especialistas ouvidos pela imprensa avaliam que parte do aumento em alguns estados pode estar ligada ao aprimoramento na identificação e classificação desses crimes pelas polícias e pelo sistema de Justiça, já que mortes antes registradas como homicídios comuns passaram a ser corretamente enquadradas como feminicídio.

As ações do governo para reduzir os casos

Para tentar reverter o quadro, o MJSP e o Ministério das Mulheres mantêm a Operação Integrada Mulher Segura, dividida em duas fases ao longo de 2026. A primeira etapa, realizada entre 19 de fevereiro e 5 de março, resultou em 6.328 prisões, atendimento a 38.801 vítimas e acompanhamento de 30.388 medidas protetivas, com a mobilização de 40.097 policiais em 2.615 municípios. A segunda fase, entre 1º de junho e 21 de julho, teve alcance ainda maior, com 14.113 prisões, atendimento a 53.343 vítimas, acompanhamento de 25.420 medidas protetivas e mobilização de 58.833 policiais em 1.384 municípios.

Somando as duas fases, o total de prisões relacionadas ao enfrentamento da violência contra a mulher no primeiro semestre passou de 20 mil, sendo a maior parte em flagrante. O governo também inaugurou o Centro Integrado Mulher Segura, estrutura criada para integrar e monitorar nacionalmente os serviços de atendimento a mulheres vítimas de violência, reunindo informações de diferentes órgãos em um único ponto de acompanhamento.

Mesmo com o esforço operacional, o próprio ministério reconhece que a queda de 2,5% ainda deixa o Brasil com uma média de quatro feminicídios por dia, número considerado alto por especialistas em segurança pública e direitos das mulheres. A avaliação geral é que houve avanço na notificação e na resposta policial, mas isso não é suficiente, sozinho, para explicar toda a variação observada entre os estados.

O que explica as diferenças entre os estados

A disparidade regional levanta a discussão sobre como cada estado estrutura sua rede de proteção à mulher, incluindo delegacias especializadas, casas de acolhimento e agilidade na concessão de medidas protetivas. Estados que registraram queda expressiva, como os do Norte e Nordeste, tendem a ter programas locais mais consolidados de acompanhamento de vítimas, enquanto o crescimento em estados como Goiás e Sergipe acende um alerta sobre a necessidade de reforço imediato nessas regiões.

Outro ponto observado pelos ministérios é que a comparação entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026 mostra uma redução de 59 casos, indicando desaceleração dos feminicídios entre abril e junho em relação aos três primeiros meses do ano. Isso sugere que as ações mais recentes, incluindo a segunda fase da Operação Mulher Segura, podem estar produzindo efeito prático, ainda que de forma gradual.

Para o público em geral, a leitura mais equilibrada dos dados é que o Brasil avança, mas em ritmo desigual, e que a queda nacional não deve ser interpretada como sinal de que o problema está sob controle. A tendência é que o segundo semestre traga novos balanços que ajudarão a confirmar se a desaceleração observada entre abril e junho se mantém ou se os estados que registraram alta conseguem reverter a tendência com reforço de políticas locais de proteção.

Fontes:
Ministério da Justiça e Segurança Pública: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias-1/brasil-registra-reducao-de-2-5-nos-feminicidios-no-primeiro-semestre-de-2026
CNN Brasil: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/brasil-registra-queda-de-25-nos-feminicidios-no-primeiro-semestre/

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